De: Paolo Sorrentino. Com Celeste Dalla Porta, Gary Oldman, Luisa Ranieri e Silvio Orlando. Drama / Romance, Itália / Franã, 2024, 137 minutos.
Quem acompanha a carreira do diretor italiano Paolo Sorrentino sabe: suas obras costumam ser experiências oníricas, sinuosas, surrealistas, existencialistas, filosóficas, sensuais e artísticas. É assim que ele construiu uma sólida carreira, em que filmes pontuados por fragmentos servem como a desculpa mais do que ideal para debates - nas entrelinhas, que seja -, de temas como luto, memória, velhice, artes, gastronomia, paixão e tesão, claro. Ao cabo, produções como A Grande Beleza (2013) e A Juventude (2015) servem quase como um pequeno estudo antropológico do comportamento humano - nossos erros e acertos, anseios e medos, desejos reprimidos ou não, tudo embalado com um quezinho de sofisticação burguesa que, por vezes, parece no limite de sua própria decadência. E todo esse expediente se repete no saboroso Parthenope: Os Amores de Nápoles (Parthenope).
Assim como no ainda recente e premiado A Mão de Deus (2021), Sorrentino retorna novamente para a sua cidade Natal para narrar a história de amadurecimento de Parthenope (Celeste Dalla Porta), jovem napolitana que nasce (metaforicamente) das águas e, tal qual uma deusa grega, parece enfeitiçar qualquer um que cruze seu caminho, com sua beleza estonteante, inteligência acima da média - que lhe faz ter "sempre a resposta certa" -, e comportamento ao mesmo tempo misterioso, atrevido e sensual. A exuberância da protagonista é completada pelas próprias imagens da geografia da cidade em si, com suas ruas, cores, sabores, águas, belezas mundanas e arquitetura onipresente praticamente saltando da tela. "Você não tem ideia da inquietação que sua beleza causa", comenta em certa altura o escritor John Cheever (Gary Oldman), como que, alegoricamente, resumindo não apenas a musa que se torna sua amiga íntima, mas também a cidade.
Com vários saltos temporais, a história se inicia em 1950 para, depois derivar para 1968 e 1973, com outros pequenos pulos nas décadas de 70 e 80, até chegar em 2023. Em cada um desses períodos, Parthenope é retratada como um espírito livre, determinado e idealista, que flama pela cidade como uma espécie de Marcelo Mastroiani de A Doce Vida (1960), saindo de um núcleo a outro, uma relação a outra, um encontro fortuito aqui e ali para seguir a sua vida de forma corajosa, na busca de fugir do papel que a sociedade reserva às mulheres (de donas de casa obedientes e preocupadas com a família) - e de também ignorar as investidas dos vários homens do entorno, que lhes nutrem demasiada paixão. Estando entre eles Sandrino (Dario Aita), o filho da governanta da luxuosa mansão em que reside e até mesmo o seu irmão, Raimondo (Daniele Rienzo), que parece ter um sentimento meio confuso em relação à protagonista. "Se eu tivesse quarenta anos a menos você casaria comigo?" pergunta um velho comandante amigo da família, em certa altura. "A pergunta correta seria, se eu tivesse quarenta anos a mais, você casaria comigo?", retruca Parthenope. Ela parece estar sempre um passo à frente. E faz questão de evidenciar isso nas suas vivências mundanas, pacatas e cheias de desinibição.
Fugindo da lógica, a jovem entra para a faculdade de Antropologia, faz amizade com o severo professor Devoto Marotta (Silvio Orlando), viaja para Capri, é seduzida (em vão) por um ricaço, se aproxima de Cheever, que é seu escritor preferido e que se torna confidente, presencia uma tragédia envolvendo seu irmão, escreve uma tese, tenta se tornar atriz se tornando pupila de uma certa Flora Malva (Isabella Ferrari), uma espécie de Norma Desmond italiana, que não mostra o seu rosto desfigurado, após uma cirurgia plástica mal sucedida, conhece uma atriz idosa e petulante de nome Greta Cool (Luisa Ranieri), que lhe alerta sobre os perigos de uma vida ordinária, vai para os bairros operários, conhece os rituais da máfia, engravida, faz um aborto, enfrenta uma ditadura, conhece um excêntrico cardeal e tudo isso sempre banhado em brilho suntuoso e efervescente. Para alguns paladares pode ter uma carinha meio de autoparódia ou um clima geral de "já vi isso antes". Mas assistir a qualquer obra de Sorrentino é sempre uma experiência meio mágica, em que o microcosmo se expande. E se torna universal.
Nota: 8,0