sexta-feira, 4 de abril de 2025

Cinema - Parthenope: Os Amores de Nápoles (Parthenope)

De: Paolo Sorrentino. Com Celeste Dalla Porta, Gary Oldman, Luisa Ranieri e Silvio Orlando. Drama / Romance, Itália / Franã, 2024, 137 minutos.

Quem acompanha a carreira do diretor italiano Paolo Sorrentino sabe: suas obras costumam ser experiências oníricas, sinuosas, surrealistas, existencialistas, filosóficas, sensuais e artísticas. É assim que ele construiu uma sólida carreira, em que filmes pontuados por fragmentos servem como a desculpa mais do que ideal para debates - nas entrelinhas, que seja -, de temas como luto, memória, velhice, artes, gastronomia, paixão e tesão, claro. Ao cabo, produções como A Grande Beleza (2013) e A Juventude (2015) servem quase como um pequeno estudo antropológico do comportamento humano - nossos erros e acertos, anseios e medos, desejos reprimidos ou não, tudo embalado com um quezinho de sofisticação burguesa que, por vezes, parece no limite de sua própria decadência. E todo esse expediente se repete no saboroso Parthenope: Os Amores de Nápoles (Parthenope).

Assim como no ainda recente e premiado A Mão de Deus (2021), Sorrentino retorna novamente para a sua cidade Natal para narrar a história de amadurecimento de Parthenope (Celeste Dalla Porta), jovem napolitana que nasce (metaforicamente) das águas e, tal qual uma deusa grega, parece enfeitiçar qualquer um que cruze seu caminho, com sua beleza estonteante, inteligência acima da média - que lhe faz ter "sempre a resposta certa" -, e comportamento ao mesmo tempo misterioso, atrevido e sensual. A exuberância da protagonista é completada pelas próprias imagens da geografia da cidade em si, com suas ruas, cores, sabores, águas, belezas mundanas e arquitetura onipresente praticamente saltando da tela. "Você não tem ideia da inquietação que sua beleza causa", comenta em certa altura o escritor John Cheever (Gary Oldman), como que, alegoricamente, resumindo não apenas a musa que se torna sua amiga íntima, mas também a cidade.

 


Com vários saltos temporais, a história se inicia em 1950 para, depois derivar para 1968 e 1973, com outros pequenos pulos nas décadas de 70 e 80, até chegar em 2023. Em cada um desses períodos, Parthenope é retratada como um espírito livre, determinado e idealista, que flama pela cidade como uma espécie de Marcelo Mastroiani de A Doce Vida (1960), saindo de um núcleo a outro, uma relação a outra, um encontro fortuito aqui e ali para seguir a sua vida de forma corajosa, na busca de fugir do papel que a sociedade reserva às mulheres (de donas de casa obedientes e preocupadas com a família) - e de também ignorar as investidas dos vários homens do entorno, que lhes nutrem demasiada paixão. Estando entre eles Sandrino (Dario Aita), o filho da governanta da luxuosa mansão em que reside e até mesmo o seu irmão, Raimondo (Daniele Rienzo), que parece ter um sentimento meio confuso em relação à protagonista. "Se eu tivesse quarenta anos a menos você casaria comigo?" pergunta um velho comandante amigo da família, em certa altura. "A pergunta correta seria, se eu tivesse quarenta anos a mais, você casaria comigo?", retruca Parthenope. Ela parece estar sempre um passo à frente. E faz questão de evidenciar isso nas suas vivências mundanas, pacatas e cheias de desinibição.

Fugindo da lógica, a jovem entra para a faculdade de Antropologia, faz amizade com o severo professor Devoto Marotta (Silvio Orlando), viaja para Capri, é seduzida (em vão) por um ricaço, se aproxima de Cheever, que é seu escritor preferido e que se torna confidente, presencia uma tragédia envolvendo seu irmão, escreve uma tese, tenta se tornar atriz se tornando pupila de uma certa Flora Malva (Isabella Ferrari), uma espécie de Norma Desmond italiana, que não mostra o seu rosto desfigurado, após uma cirurgia plástica mal sucedida, conhece uma atriz idosa e petulante de nome Greta Cool (Luisa Ranieri), que lhe alerta sobre os perigos de uma vida ordinária, vai para os bairros operários, conhece os rituais da máfia, engravida, faz um aborto, enfrenta uma ditadura, conhece um excêntrico cardeal e tudo isso sempre banhado em brilho suntuoso e efervescente. Para alguns paladares pode ter uma carinha meio de autoparódia ou um clima geral de "já vi isso antes". Mas assistir a qualquer obra de Sorrentino é sempre uma experiência meio mágica, em que o microcosmo se expande. E se torna universal.

Nota: 8,0 


quarta-feira, 2 de abril de 2025

Novidades em Streaming - Saturday Night: A Noite que Mudou a Comédia (Saturday Night)

De: Jason Reitman. Com Gabriel LaBelle, Cory Michael Smith, Ella Hunt, Dylan O'Brien e Rachel Sennott. Comédia, EUA, 2024, 109 minutos.

Um filme de comédia sobre um dos maiores programas de humor da história: e que consegue a proeza de não ter nenhuma graça. Aliás, que mais do que isso, chega até a gerar algum tipo de vergonha alheia em certo ponto. Muita gente - inclusive parte da crítica - afirmou que Saturday Night: A Noite que Mudou a Comédia (Saturday Night) só funcionaria para aqueles que estivessem bastante familiarizados com os bastidores e com as figuras emblemáticas que originariam o clássico programa da NBC. Sinceramente, eu não preciso estar por dentro da cultura japonesa pra apreciar uma obra de lá. Ou inteirado do período ditatorial chileno pra compreender as nuances políticas dessa ou daquela produção. O caso é que o filme dirigido por Jason Reitman é ruim mesmo. Uma bagunça irritante, caótica, supostamente divertida, e que é tão cansativa que eu quase cogitei desistir.

E em geral, em si, parecia uma boa ideia. Mesmo que a gente não conheça tão bem assim esse produto tipicamente estadunidense, meio que qualquer sujeito que aprecia programas de esquetes já cruzou nas timelines da vida com alguma sequência engraçada do programa que, há cinquenta anos, vai ao ar nos sábados à noite, nos Estados Unidos. Então porque não contar essa história de como foram as ansiedades por trás das câmeras na hora e meia antes da estreia? Legal, né? Baita! Só que não. Tendo o produtor Lorne Michaels (Gabriel LaBelle) como uma espécie de fio condutor da narrativa que leva o espectador de lá pra cá nesse tour guiado bagunçado de corredores apertados, cubículos cheios de gente, palcos improvisados, estúdios adaptados e percorridos por 50 mil pessoas ao mesmo tempo, todas gritando, perguntando alguma coisa, falando basicamente o tempo todo, a sensação é de apenas claustrofobia. E talvez raiva.

 


A impressão que se tem é a de que ninguém fazia a menor ideia do que estava fazendo ali, antes do programa ir ao ar na sua primeira edição - e, ok, parece que a história foi essa mesma. A ideia era substituir (até onde entendi porque nem sempre) as reprises do programa do Johnny Carson. Então é meio que isso: cenários sendo construídos de última hora, esquetes sem graça ensaiadas faltando meia hora pra estreia, profissionais desistindo no meio do caminho, brigando, se avacalhando. Aliás, taí uma boa palavra: avacalhação total. E mais, como se fosse uma massa disforme sem nenhum personalidade, o conjunto de astros se comporta de uma forma tão inexplicavelmente homogênea - todos com aquele sendo de humor meio de tiozão cringe -, que ninguém parece possuir algum traço especificamente particular, distinto. Sendo o auge do erro de escalação, nesse sentido, o caso de Nicholas Braun (o eterno e ótimo Greg, de Sucession), que sério, quem quiser que se arrisque a conferir.

No mais, as poucas partes que se salvam são aquelas em que há um respiro eventual motivado por alguma saída de dentro do estúdio - uma ida ao terraço, ou ao bar -, em que as coisas se acalmam um pouco e a gente quase se conecta com algo ou alguém ali. São instantes eventuais em que há um ensaio de profundidade. De calmaria. E como seria bom se houvesse mais desses momentos na produção. No mais, a gente não se importa muito. Não importa se Chevy Chase (Cory Michael Smith) tinha pinta de galã metido e arrogante, se George Carlin (Matthew Rhys) parece irritado com tudo e com todos, se os executivos de estúdio tão batendo cabeça, se uma censora tenta cortar trechos do texto porque eles podem ser, uau, escatológicos ou cheios de piadas sexistas. É um ambiente que, em conjunto, soa ultrapassado - ainda que haja um esforço coletivo em se apresentar o tempo todo como subversivos, anárquicos, revolucionários. Vamos combinar, né galera, o SNL é um bom programa. Mas não salvou a TV. O que não justifica essa "homenagem" tão estupidamente histriônica.

Nota: 2,0

 

terça-feira, 1 de abril de 2025

Pitaquinho Musical - Lady Gaga (MAYHEM)

Um disco de inéditas que mais parece uma coletânea que condensa tudo aquilo que a Lady Gaga entregou para os fãs ao longo de sua carreira: assim pode ser resumida a experiência com MAYHEM, o sétimo registro da estrela pop - e um dos melhores. Sim, a gente sabe que na era do "sou fã quero service" é meio chato o público ficar meio que ditando aquilo que o artista deve ou não fazer, mas o caso é que basta chegar na metade do hipnótico single Abracadadra para nos sentirmos diante da Lady Gaga raiz (especialmente depois dos experimentos country do igualmente bom Joanne, de 2016, e do aceno ao jazz na parceria com Tony Bennett). Ainda assim, talvez o crítico musical mais ávido por novidades possa afirmar que aqui temos o mais do mesmo - e, vamos lá, muitas vezes vai ver a gente só quer aquilo que já estejamos acostumados. Que nos seja familiar. Que nos abrace. Gaga, que se apresenta no Brasil em maio, sabe fazer música pop dançante como ninguém. E se havia alguma dúvida depois do desastroso Harlequin, feito para o constrangedor Coringa: Delírio A Dois (2024), ela está sanada.

 


Só que, diante disso tudo, é importante dizer: esse aceno ao passado, especialmente à fase The Fame Monster (2009), jamais significa obviedade. Gaga nos convida pra dança, mas mostra a personalidade de sempre em faixas que flertam como outros estilos e subgêneros como o grunge eletrônico (Perfect Celebrity), o rock das rrriot girls (Garden of Eden), o funk de levada noventista (Killah), a inspiração na Taylor (How Bad do U Want Me, a minha preferida), o gótico (The Beast), a baladona romântica (Blade of Grass). Tudo com aquelas letras simples e reflexivas que amamos, em que temas como romances tortos, fama, cobranças e frustrações, manutenção da sanidade mental, desafios da carreira (e do mundo como um todo), empoderamento feminino e LGBTQIA+, perdas e luto, se mesclam em uma experiência sempre celebratória, que só parece crescer a cada audição. Eu sei que é cedo e que muita coisa ainda vai acontecer em termos de música nesse 2025. Mas até aqui, não há nada que supere isso.

Nota: 9,5

Novidades em Streaming - Acabe com Eles (Bring Them Down)

De: Christopher Andrews. Com Christopher Abbott, Barry Keoghan, Nora Jane-Noone e Paul Ready. Drama / Irlanda / Reino Unido / EUA / Bélgica, 2024, 105 minutos.

Vamos combinar que a verossimilhança não é uma característica necessária para a apreciação de um filme. Mas ao mesmo tempo, ela pode ajudar a tornar um pouquinho mais crível aquilo que assistimos. Em gêneros como o drama, por exemplo, aquele pezinho na realidade sempre faz bem. Ajuda a dar a impressão de verdade. E a nos conectar com a obra. No subgênero do drama rural que, depois de ótimas experiências em produções alternativas como As Bestas (2022), A Menina Silenciosa (2022) e Alcarrás (2022), parece estar em leve alta esse espaço de deslocamento para o campo e as pessoas que lá habitam parecem prescindir ainda mais de plausibilidade. Um agricultor, enfim, fica melhor se parecer um agricultor. Uma família do campo sempre soará mais realista se adotar hábitos mais próximos aos do interior. Ou sei lá se eu tô viajando, mas tenho a impressão de não ter encontrado isso no defeituoso Acabe Com Eles (Bring Them Down).

Sim, o filme que estreou na Mubi na semana passada e que foi exibido em festivais mundo afora pode até ter boas intenções no seu pano de fundo - com o roteiro ancorado em um ambiente de violência crescente, que decorre de traumas do passado. Ok, famílias rurais podem ter suas desavenças. Seus problemas ou medidas desesperadas na tentativa de sobreviver. Mas a menos que sejam pessoas completamente desvairadas não me parece uma solução meio inteligente atacar o rebanho ovino de um vizinho - que só está separado de você por um morro em uma propriedade (com uma ponte) -, para retirar dos animais apenas as patas, simplesmente porque uma atravessadora do mercado paralelo disse a eles que essas peças possuem grande valor de venda. O simples fato de cogitar tal atrocidade, para alguém que não parece o maior vilão da história das fazendas do interior da Irlanda, é de um descolamento da realidade acachapante.

 


E tá tudo bem. Digamos que, num ato de vingança, um criador de ovelhas resolvesse ferrar a vida do outro fazendo isso. Qual o sentido? Parece uma forma meio forçada de retratar o belicismo eventual desse tipo de ecossistema. Bom, mas eu já falei demais e nem comentei direito sobre o que é esse filme, que marca a estreia do diretor Christopher Andrews e que começa com um trágico acidente provocado pelo jovem Michael (Yousseff Quinn), que mata a sua mãe e desfigura o rosto de sua antiga namorada, Caroline (Nora Jane-Noone). Um salto breve no tempo nos faz perceber que Michael (Christopher Abbott, na fase adulta) ainda é assombrado pelo ocorrido. Ainda mais pelo fato de Caroline lhe ter abandonado para casar com um vizinho com cara de poucos amigos - seu nome é Gary (Paul Ready) -, com o qual tem um filho, Jack (Barry Keoghan, que tem de dar uma cuidada pra não soar meio caricato na hora de interpretar o doidinho da vez).

O furto de duas ovelhas de Michael, que descobre os animais vivos, mais tarde, na feira da cidade, faz as tensões aumentarem, com trocas de empurrões e promessas de violência - e até esse ponto, eu admito que estava bastante envolvido com a trama. Havia ainda algum tipo de sutileza que nos deixava meio no escuro quanto ao que poderia ocorrer dali pra frente. Só que aí a coisa desanda após um acidente de carro que fere Gary e Jack, com perseguições de parte a parte - e é muito irritante perceber como a trilha sonora invasiva, aquele tipo de percussão não muito criativa, parece sempre querer te lembrar que aquele é um momento em que você deve ficar nervoso. Ok, há aqui e ali alguns bons momentos diante da mata fechada e claustrofóbica, que lembram algum tipo de perseguição bucólica à Hitchcock (forçando bastante a barra). Mas não é suficiente. Assim como não é suficiente a metáfora da ovelha como um bicho em vulnerabilidade. O pai inútil na cadeira de rodas. Ou o clichê da morte do cachorro. Há muito filme bom nesse filão sendo feito (pode clicar em qualquer uma das três resenhas lá do começo do texto). E esse aqui, cheio de urbanoides que nunca se comportam como agricultores, não cola.

Nota: 4,0 


segunda-feira, 31 de março de 2025

Pitaquinho Musical - The Loft (Everything Changes Everything Stays the Same)

Vamos combinar que a gente chegou num ponto do consumo cultural que é tanta oferta que se torna meio que impossível não pensar que estamos deixando escapar algo. Sim, da série hypada ou da trend do Tik Tok do momento, passando pelo disco mais aguardado da estrela pop, muita coisa fica pelo caminho - e acho que esse é justamente o caso dessa estreia (!) carismática dos britânicos do The Loft. Ao cabo, lááá no final do ano, quando as listas de melhores discos do ano forem publicadas, o álbum Everything Changes Everything Stays the Same, provavelmente será um daqueles grandes trabalhos de 2025, que ninguém ouviu. E não sei se é o momento - sabe aquela coisa de "era exatamente isso que eu precisava AGORA" -, mas fiquei absolutamente encantado com as guitarrinhas perfumadas, os refrãos grudentos e as letras bem humoradas e irônicas dessa banda indie que parece uma mistura de Spoon com Real Estate, apesar de serem anteriores a esses.

 


Aliás, foi exatamente esse o papo que meti pra dois amigos, tentando vender o álbum como algo que valeria dar algum tipo de atenção - e não deixa de ser meio irônico o fato de o título do disco ser, numa tradução livre, algo como "tudo muda tudo permanece o mesmo", já que o grupo existe há mais de quatro décadas e, sabe-se lá por quê, nunca tinha tido um álbum pra chamar de seu (e vai ver em 1985 isso aqui pareceria meio deslocado mesmo). Bom, o álbum chega anos depois em um período em que toda a música do planeta já parece ter sido feita. Nesse sentido, como emergir da bolhazinha alternativa para alcançar um nicho maior? Talvez o The Loft - que é aquele tipo de banda bem raiz, de duas guitarras, baixo e bateria, aquela coisa meio analógica, mas atemporal, nostálgica mas imediata - nem saiba direito. Mas enquanto isso, eles nos divertem com essa sonoridade pop retrô, primaveril e grudenta que embala as candidatas a hit Feel Good Now, Dr. Clarke, Somersaults e The Elephant. Vale o play.

Nota: 8,5

Novidades em Streaming - A Última Showgirl (The Last Showgirl)

De: Gia Coppola. Com Pamela Anderson, Jamie Lee Curtis, Dave Bautista e Brenda Song. Drama, EUA, 2024, 89 minutos.

Juro que eu não queria ter pensado nisso neste filme em específico, mas aconteceu: estou com receio de que possamos viver uma banalização, uma saturação do comeback, do jeito que a coisa vai. Sim, é justíssimo que muitos artistas sejam resgatados, recuperados e que tenham direito ao holofote que parece já perdido há algum tempo - ainda mais no caso de figuras emblemáticas do passado, como é o caso da Pamela Anderson, uma das eternas salva-vidas de Baywatch -, que dão a impressão de só terem tido valor para a indústria enquanto eram jovens e bonitas. Como disse, as novas oportunidades que possam fornecer grau um maior de profundidade dramática para aqueles que só eram conhecidos por seus corpos esculturais, parece uma forma legítima de emparelhar essa conta. E fazer com que atores e, especialmente, atrizes tenham novas chances. Ainda mais no caso de Anderson, que passou poucas e boas na sua carreira.

Mas a meu ver é aí que parece residir uma parte do problema: o retorno não pode ser apenas pelo retorno. Em uma obra que só não se esvai no completo nada porque tem o seu pontinho bem demarcado sobre o problema do etarismo e de como opera a máquina trituradora de estrelas - sempre sedenta pela novidade da vez, pela jovem em ascensão, pelo nome mais sexy do momento e que vai estampar as capas de revistas por um punhado de anos -, temos quase uma sensação de vazio. Pamela Anderson já foi essa pessoa nos anos 90. Já foi uma deusa desejada por dez entre dez seres humanos na face da Terra. E, assim como ocorreu com Demi Moore no último ano, foi buscada de algum tipo de limbo das divindades de Hollywood, anos após ter sex tape roubada e distribuída sem autorização e de ter sofrido outros abusos e humilhações do meio. Só que tem uma diferença: A Substância (2024) é um filmaço. Já A Última Showgirl (The Last Showgirl) é uma experiência meio oca que, com o perdão do trocadilho, parece justamente carecer de substância.

 


 

Em linhas gerais, o terceiro filme de Gia Coppola - neta de Francis e sobrinha de Sofia -, até tem algum tipo de esforço estilo Sundance wannabe, que nos faz lembrar algum tipo de meme imaginário em que a diretora aparece pensativa diante de uma ilha de edição, com a mão no queixo dizendo "isso aqui os cinéfilos vão gostar". Ao cabo há toda uma aura onírica de poeira e de purpurina que parece ideal para os arenosos arredores de Las Vegas - e talvez não seja por acaso que Shelly (Anderson) apareça tantas vezes em planos médios como alguém que apenas olha para o horizonte, num misto de melancolia e letargia, enquanto a ótima trilha sonora de Andrew Wyatt nos invade a alma com suas notas cortantes e nebulosas. Esse clima meio de decadência do sonho americano faz lembrar as obras de Sean Baker, como se aqui tivéssemos uma improvisada mistura de Projeto Florida (2017) com Red Rocket (2021).

Nessa altura do campeonato você já sabe que a Última Showgirl é justamente a última dança - pra utilizar um outro trocadilho, esse muito recorrente no meio esportivo -, de uma dançarina que se aproxima dos 60 anos e que é informada por Eddie (Dave Bautista no modo capilar, aliás, de onde surgiu tanto cabelo naquela cabeça?), o produtor da famosa casa de shows Razzle Dazzle, que a boate vai fechar. Os tempos mudaram e o auge vivido nos anos 80 e 90 ficou para trás. Para Shelly e para outras dançarinas, como as jovens Mary-Anne (Brenda Song) e Jodie (Kiernan Shipka) o futuro parece incerto. A protagonista tem uma melhor amiga chamada Annette (Jamie Lee Curtis, uma espécie de estranho alívio cômico) que saiu do cabaré anos antes e hoje ganha a vida como garçonete em um cassino. E, como não poderia deixar de ser nesse gênero dentro do gênero, há ainda o subtexto da mãe marginalizada que tenta se reaproximar da filha - algo que já tínhamos experienciado no péssimo A Baleia (2022), mais um caso de comeback que o pessoal se emocionou um pouquinho a mais da conta, em um filme bem ruim.

 

 

Como já meio que dito, aqui temos o filme que promete e que fica só na promessa. Há um sentimento geral de baixa profundidade na coisa toda, que quase descamba pro moralismo barato, especialmente quando a filha - seu nome é Hannah (Billie Lord) - retorna para confrontar a mãe a respeito de suas escolhas do passado (especialmente o fato de ter priorizado a sua arte para colocar comida no prato daqueles que ama). Outro ponto meio incômodo é a suposta insistência de que a protagonista só terá algum futuro se tiver um homem pra chamar de seu. Ou se tiver um trabalho garantido para quando a aposentadoria dos palcos vier. A impressão que temos é a de que as pessoas se resumem só a isso - trabalho, marido, vidinha. A esse entorno. E essa falta de complexidade não se resolve com Shelly dançando desvairadamente nas ruas, ao som de uma trilha sonora metafísica. Ou com uma cena meio patética de Curtis dançando da forma mais cringe do planeta ao som de Total Eclipse of the Heart. Talvez haja outras formas de contar essas histórias. Com mais solidez. Senão o comeback fica meio injustificado. E até meio constrangedor.

Nota: 5,0

quarta-feira, 19 de março de 2025

Novidades em Streaming - A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas)

De: Lone Scherfig. Com Sara Becker, Bérenice Bejo, Alondra Valenzuela, Daniel Brühl e Antonio de la Torre. Drama, Chile / Espanha / França, 2023, 116 minutos.

"Artistas são como vagalumes. Têm brilho próprio." Sim, A Contadora de Filmes (La Contadora de Películas) pode até ser aquele tipo de produção meio batida, que presta homenagem ao cinema, ao mesmo tempo em que evidencia o poder da arte como veículo de transformação - cultural, social, política. Só que nessa nova obra de Lone Scherfig, do oscarizado Educação (2009), tudo é tão salpicado de carisma, que é meio difícil de resistir. Ainda mais por se tratar de um projeto que viaja para a América do Sul, mais precisamente para o Chile dos anos 60 - década que antecederia o golpe de Estado (e a ditadura) de Pinochet -, para nos contar a história da jovem Maria Margarita (Alondra Valenzuela), uma menina apaixonada por cinema, a ponto de tratar as idas de fim de semana para o escurinho da sala da cidadezinha local, como um verdadeiro evento. Uma coisa quase ecumênica.

Só que esse não é um amor apenas de Margarita. O caso é que toda a sua família ama as produções cinematográficas - do pai Medardo (Antonio de la Torre) e da mãe Maria Magnolia (Berénice Bejo), até chegar aos seus irmãos Mirto (Beltran Izquierdo), Marcelino (Santiago Urbina) e Mariano (Elian Lobos). Todos se reúnem nos domingos para sessões entusiasmadas de O Homem que Matou o Facínora (1962), A Um Passo da Eternidade (1953) ou Spartacus (1960). E, nesse conjunto, tudo vai mais ou menos bem na rotina familiar: Medardo é o operário da mina local, que vê o mercado de salitre ser impulsionado por suas múltiplas possibilidades de uso. O gerente da mina, um certo Hauser (Daniel Brühl) parece tê-lo em alta conta, ainda que o que lhe interesse mesmo seja destinar galanteios à bela Magnolia. Só que aí vem um grave acidente que impedirá o patriarca de seguir seu trabalho, relegando-o eternamente a uma cama.

 


Em um período em que direitos trabalhistas ainda se apresentavam como incipientes, a despeito das reuniões quase clandestinas de trabalhadores, exibidas em algumas sequências, Medardo sai com uma mão na frente e outra atrás. O que resultará em severas dificuldades financeiras para todos os integrantes da família que, de um dia para o outro, veem o seu lazer preferido se esvair. Com dinheiro para apenas um ingresso de cinema frente à pobreza, surge o dilema: quem enviar para não apenas assistir o filme, mas relatar a experiência?  Mirto parece não conseguir controlar a boca suja, ao proferir uma dúzia de palavrões por frase a cada sentença. Já Marcelino exaure a família, com um estilo rebuscado, entre o parnasiano e o romântico, que irrita a todos. Com Mariano a coisa também não flui tão bem, cabendo à Margarita o ofício de assistir a produções como Gata em Teto de Zinco Quente (1958), Se Meu Apartamento Falasse (1960) e Três Homens em Conflito (1966), entre outras, para contá-las a família, reunida na sala, depois.

É algo bonito e fantasioso, unindo a mágica fílmica já vista anteriormente em obras como A Rosa Púrpura do Cairo (1985) e Rebobine por Favor (2008), que convertem o amor pelo cinema em uma experiência anestesiante e bela. Pode não haver nada de mais aqui, mas não deixa de ser interessante notar como a arte surge, a todo momento, como ponto de ruptura, de quebra do status quo e de derrubada de certo conservadorismo reinante. Em certa altura, Margarita (interpretada por Sara Becker, na versão adulta) descobre, em companhia do seu eterno primeiro amor Maurício (Simon Beltran), que sua mãe anda frequentando, às escondidas, um bordel local, onde dançarinas se exibem com bustiês cheios de purpurina para senhores engomados. Lá pelas tantas, nem surpreenderá tanto a fuga de Magnolia, que desaparece sem deixar muito rastro, talvez indo atrás da plateia nunca encontrada. "Ele nunca pôde substituir o público imaginado dela", reflete alguém a certa altura, a respeito da relação de Medardo e Magnolia - ela que nutria sonhos secretos de ser uma dançarina. Arte, memória, política, patriarcado, violências, traumas, questões sociais. É tudo muito sutil. Tão sutil que a gente quase nem nota que a produção, baseada no romance de Hernán Letelier, conta com Walter Salles na produção. Um atrativo a mais.

Nota: 8,0

 

segunda-feira, 17 de março de 2025

Novidades em Streaming - Mil e Um (A Thousand and One)

De: A.V. Rockwell. Com Teyana Taylor, Aaron Kingsley Adetola, William Catlett e Josiah Cross. Drama, EUA, 2023, 117 minutos.

 "Por quê você sempre me abandona?". Existe um sentimento meio ambíguo na pergunta feita pelo jovem Terry (Aaron Kingsley Adetola) a sua mãe Inez (Teyana Taylor), ainda no começo do impactante Mil e Um (A Thousand and One), obra que venceria o Prêmio do Júri no Festival de Sundance de 2023 e que, agora, chega a Netflix. Afinal de contas, quem abandona quem em uma cidade (e em um bairro) que cresce, se modifica, se embranquece, se gentrifica? Inez é claramente uma jovem mãe fraturada, calejada que, mesmo com poucos anos de vida, aparenta carregar o mundo nas costas - tanto que quando ela sai da prisão, parece se mover de forma frenética, urgente, por meio de carros e prédios e fios em um Brooklyn urbano e caótico. Ela é uma cabeleireira que precisa correr atrás dos meses que se esvaíram atrás das grades. Enquanto tenta se reaproximar do filho que, abandonado com apenas dois anos de idade (de acordo com suas memórias), agora reside em uma casa adotiva.

Como mulher preta, periférica, sem muita perspectiva e sem nenhum tipo de amparo do Estado, Inez toma uma medida meio desesperada em relação à Terry: o "sequestra", na ideia de não mais o abandonar. Embora todos que acompanharemos nessas tensas duas horas de tentativas desesperadas de sobrevivência pareçam, como já disse, abandonados. Inez mal tem onde morar. Como cabeleireira autônoma ela precisa reconstruir uma clientela que meio que não existe. E ainda de forma escondida, para não dar nas caras que seu filho, que talvez jamais devesse ser apartado dela independentemente das circunstâncias, agora se se encontra com ela de forma ilegal. É uma realidade crua, de uma cidade (no caso Nova York, mas bem que poderia ser outra metrópole), que a gente meio que não vê. Que está algumas camadas abaixo, longe da branquitude das paredes e das cercas ou da da higienização reforçada por práticas um tanto eugenistas.

 


 

Sim, porque nas aparências esse filme pode ser sobre uma mãe em fuga que não deseja mais se separar de seu filho, como uma leoa em torno de sua prole, brigando contra tudo e todos. Mas a ótima estreia de A.V. Rockwell também é uma produção sobre um mundo em transformação, que se altera, que se modifica, e que relega às pessoas mais vulneráveis os destinos mais implacáveis. Para que Terry, por exemplo, não seja localizado por agentes do Estado - que detém sua custódia -, Inez solicita a um amigo do Harlem, onde ela agora se refugia, documentos falsos (certidão de nascimento e cartão de seguridade social) para o menino. É uma forma paliativa de fugir da vigilância, que, aliás, só cresce (e é interessante notar como a obra exibe, em trechos transitórios, uma série de discursos de antigos prefeitos de Nova York, como Rudy Giuliani e Mark Bloomberg, que sequer parecem perceber o quão contraditórias são as suas falas sobre violência policial e proteção do cidadão, enquanto, por exemplo, citam a escritora Toni Morrison).

Todos esses componentes adicionam complexidade à produção, que jamais passa pano para seus personagens, que se apresentam como figuras complexas, ambíguas, nunca unilaterais. Quando, por exemplo, o antigo namorado de Inez, Lucky (William Catlett) reaparece em sua vida, ele pode ao mesmo tempo representar a presença (e a segurança) masculina, mas também a dúvida e a incerteza, especialmente em relação à Terry e a paternidade improvisada. Dentro de casa a vida doméstica pode ser problemática e incerta - e é assim pra qualquer pessoa. Mas quando o filme faz alguns saltos temporais em meio a traumas generalizados, desconfortos contínuos e promessas de melhoria, percebemos que é o exterior que torna tudo mais complexo. Especialmente em uma sociedade que ainda se movimenta pautada pela meritocracia. Como ser alguém na vida quando tu já arranca lá atrás? Quando sequer os teus documentos estão corretos? Quando o assédio da polícia é permanente? Quando a autoestima parece lá embaixo? Ao cabo esse é um filme duro, de realidade, que é reforçado pela fotografia granulada e pelo senso de agora. De quem precisa comer, precisa viver, agora. Não depois. O que, em tempos de Trump, pra piorar, não parece indicar uma perspectiva otimista.

Nota: 8,0